Depois de quase dois meses, pronto. Criei coragem pra meter a cara aqui.Mais um dia. 10 e meia da manhã, checando e-mails e bebendo um turkish coffee delícia no escritório. Sim, a vida está muito boa, obrigada. O intercâmbio está superando todas, todas as minhas expectativas. Não estou falando sobre qualidade de serviço ou portas mágicas se abrindo. Não. Eu apenas nunca imaginei que em tão pouco tempo alguém pudesse aprender tanto.
Quando a gente larga casa, cama e banheiro próprio pra correr o mundo, a gente abandona bem mais do que isso. No princípio, confesso, o cenário parecia uma tortura só, onde eu viveria por três meses cagando em um buraco no chão, monossilábica e repetindo a roupa do corpo todo dia no trabalho.
Depois de duas ou três noites de sono (e sonhos com feijão e leite condensado) a vida começa a ganhar forma. Parece que foi ontem. Passado o susto inicial, vieram os grandes aprendizados.
Deveria ter estudado mais antes de chegar aqui. Não sobre a Turquia, mas sobre o Brasil. Levei mais de dois baldes de água fria ao ser surpreendida com informações concretas sobre o MEU país. Sobre o biodíesel, a economia brasileira, algum lugar no mapa, números e estatísticas. Ok, convenhamos: o Google pode até ser melhor amigo dos turcos, mas ao menos eles se esforçaram pra clicar lá e saber das coisas. Eu, não.
Também pela 1a vez na vida compreendo as homenagens aos pais em formaturas. Pra mim essa parte da cerimônia nunca tinha feito sentido. Agora entendo. Precisei viajar milhares de quilometros pra entender que família não é apenas o símbolo, a tradição. É bem mais. As primeiras pessoas que confiaram e confiarão em ti, sempre - incondicionalmente. Aqueles que abrem as portas para as possibilidades entrarem na sua vida. São as referências.
Por falar em referências, descobri que considero muito mais o RS e SC como país do que todo o restante do território. É uma droga explicar as diferenças que figuram no Brasil, mas o resultado é interessante. Tá certo que as pessoas querem mesmo é saber pra que time eu torço, se danço samba no Carnaval e se o Rio de Janeiro continua lindo. No começo eu me ofendia, achava ignorância de gente bitolada que não sabe nada sobre o mundo, mas poxa, e não é? O que EU sei sobre mundo, afinal? Vou ficar três meses contando a história do meu bisavô que veio da Alemanha ou vou saciar a vontade sincera dos outros de saber das morenas cheias de curvas e praias de mar azul? Tem hora pra tudo.
Interessante também é uma pequena porção de ufanismo que os turcos carregam nos bolsos. A grande pergunta que respondo quase todos os dias é: por que escolheu a Turquia? Complicado, viu.
Depende do dia. Se estou de bom humor faço poesia e digo "porque é um lugar místico, lindo e sempre quis conhecer". Se estou cuzona falo a verdade: "nunca tinha pensado em vir pra cá, mandei meu currículo para 50 empresas de todo mundo e me aceitaram aqui, então bora enfrentar a diversidade". Nem todos merecem a verdade aqui. Tem muita gente boa pelas ruas da Turquia, pessoas que te tratam como se você fosse parte da família, que prendem broche de pimentinha na sua jaqueta pra livrar do mau olhado, que sorriem mesmo sem entender nada.
Já adianto: a Turquia é maravilhosa. Difícil explicar esse lugar inesperado, com essa pitada gélida de Europa envolta com o colorido quase triste da Ásia, as pessoas e carros sempre rápidos como feixes de luz, toda essa crença e fé que ronda os dias, todas as incertezas aconchegantes que tenho vivido.
E eu que nunca fui lá muito amiga da sorte, admito: desta vez o dado caiu no 6.