"Viaje segundo seu próprio projeto, não dê muito ouvido às facilidades dos itinerários cômodos e dos rastros já pisados, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás ou, ao contrário, seja persistente até encontrar saídas desacostumadas do mundo. Não terá melhor viagem. E, se assim pede a sua sensibilidade, registre tudo o que viveu e sentiu, o que disse ou ouviu dizer. A felicidade, saiba você, tem muitos rostos. Viajar é provavelmente um deles." (JS)

sexta-feira, 28 de março de 2008

O itinerário.

Tupras, eu, Ataturk - what a beautiful combination.






Hoje é meu último dia em Izmit. Peguei uma gripe daquelas por conta das mudanças de temperatura – aka primavera gelada. Ontem foi minha farewell party – aliás, minha e de um outro amigo da Macedônia que deixa a Turquia no domingo – estava legal, com direito a muitos “Sherefe!” (aqui as pessoas dizem isso quando querem brindar algo) mas no fundo eu estava um pouco triste. Ainda é difícil de assimilar que estou indo embora. Amanhã estou indo para Londres e depois Paris, dar uma mochilada básica e descansar (ou cansar) bastante antes de voltar para o Brasil. Em uma semana volto pra Turquia pra resgatar minhas malas e matar um pouquinho a saudade, mas coisa breve, pois ficarei apenas 12 horas por aqui – então, dormir um pouco também seria bom, vá lá.

Os caminhos.


Walk Away (Ben Harper)

Oh no - here comes that sun again
And (that) means another day without you my friend
And it hurts me to look into the mirror at myself
And it hurts even more to have to be with somebody else

And it's so hard to do and so easy to say
But sometimes - sometimes
you just have to walk away - walk away

With so many people to love in my life, why do I worry about one?
But you put the happy in my ness, you put the good times into my fun

And it's so hard to do and so easy to say
But sometimes - sometimes
you just have to walk away
walk away and head for the door

We've tried the goodbye so many days
We walk in the same direction so that we could never stray
They say if you love somebody than you have got to set them free
but I would rather be locked to you than live in this pain and misery
They say time will make all this go away
but it's time that has taken my tomorrows and turned them into yesterdays
And once again that rising sun is droppin' on down
And once again, you my friend, are nowhere to be found

And it's so hard to do and so easy to say
But sometimes, sometimes
you just have to walk away
walk away and head for the door

segunda-feira, 24 de março de 2008

Os amigos.

Este ano não tive Páscoa. Em compensação, o fim de semana me trouxe todas as raças, cores e credos do mundo de presente. Café da manhã, janta, despedida, Starbucks, Yugi, Tempo Cafe, qualquer lugar. Enquanto eu estive por aqui, eles também estavam. E assim os dias tomaram formas mais leves e as coisas acabavam sempre parecendo mais fácil do que realmente eram. E todos assim, igualmente diferentes. Viver é compartilhar.


Russia
Tunisia
Indonesia
Alemanha
Brasil
China
Macedônia
India
Colômbia
Nova Zelândia
Escócia
Turquia
Mexico












Pedaços de vida, Izmit, 2008.

"To travel is to discover that everyone is wrong about other countries." - Aldous Huxley

A semana vai ser curtinha, estou sentindo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

As histórias.

Faz tempo, eu sei, mas a verdade é que ficou pra sempre.

Na madrugada de 17 agosto de 1999 um terremoto atingiu a região de Izmit, fazendo com que prédios e mesquitas virassem farelos. Foram cerca de 45 segundos de duração e mais de 110 km de destruição completa na cidade e arredores. Estima-se que mais de 40.000 pessoas morreram e cerca de 300.000 ficaram desabrigadas.

Durante minha estada na Turquia, ouvi esta história dezenas de vezes. E não são apenas números que as pessoas contam. A linguagem corporal sempre diz bem mais. O olhar muda, a voz perde tom, um ou outro amigo são lembrados com carinho e tristeza, faltam palavras.

Aqui eu moro com um casal que tem um filho de 11 anos. Ouvi da boca dela, a mãe, de forma seca e acompanhada de olhar distante: “achei que o mundo ia acabar naquela noite”.

Tremi na base quando, sentada na cafeteria da estação de esqui, Muko contou que o lugar onde estávamos, lá, onde dezenas de crianças sorriam e deslizavam pelo gelo falso, virou o cemitério improvisado da cidade naquela ocasião, comportando milhares de corpos não-identificados.

Nove anos se passaram. A cidade agora é verde, cheia de parques, com centenas de prédios construídos pelo governo para abrigar os milhares de sem-teto que nasceram naquela noite.

Há duas semanas atrás conheci Esla, uma mulher de 30 anos, loira, jeito tranqüilo, que trabalha num banco em Istanbul e que me surpreendeu contando que já pagou 35 liras por um chá em um bar famoso em Istanbul, bem como mais de 1500 liras por um simples jantar (que, pasmem, era composto de massa, carne e queijo) com mais três amigos. Por questão de minutos, isso foi o mais surpreendente que soube sobre ela.

Horas depois, sozinha com Muko, perguntei o porquê da voz baixa e olheiras profundas de Esla. Ela parecia viver bem, uma mulher elegante, moderna e bem posicionada no fervo de Istanbul – mas mesmo assim tinha algo de estranho, mal explicado, dessas poeiras que se jogam pra baixo do tapete pra que ninguém se dê conta que um dia o passado existiu.

Muko sorriu amarelo, contando que toda a família de Esla tinha falecido no terremoto. Desde então, ela carrega com ela todas as dores do mundo em silêncio. E só.

Muito só.

terça-feira, 18 de março de 2008

O trabalho.

Abaixo, a TUPRAS e o inconfundível pôr-do-sol que me dá tchau todos os dias quando saio do trabalho. E pensar que vou vê-lo nesta moldura só mais oito vezes...


A propósito, verdade seja dita:


“All mankind is divided into three classes: those that are immovable, those that are movable, and those that move.” (Provérbio Árabe)

Em qual você se encaixa?

domingo, 16 de março de 2008

O tempo.

Quando noto que em três semanas estarei de volta ao Brasil, sinto que os dias estão passando na velocidade da luz. Pisco e já é amanhã. Ao mesmo tempo, quando penso nos amores que deixei lá, os mesmos dias parecem pequenos séculos engavetados em longas porções de 24h.



A melhor forma pra aprimorar o amor dentro de você é estando longe. Você começa a perceber a falta dos outros em detalhes pequenos (e tantas vezes bobos) que formam grandes blocos de saudade sólida. É uma forma interessante de gerar valor às pessoas. Na verdade, sempre tiveram valor – este apenas estava embaixo do tapete. O tapete dos dias iguais.

sexta-feira, 14 de março de 2008

O agridoce.


Acho que a partir do momento que as malas estão prontas e metade do coração fica em casa, cada um escolhe o intercâmbio que faz.

Quando você passa pelo portão do aeroporto e se vê como estrangeiro, passa a escolher como serão as coisas todos os dias. Algumas coisas não é você quem escolhe, é verdade, muito do que acontece você apenas sabe que tem que estar disposto a receber. O que varia é a maneira como você recebe a tantos estímulos externos ao mesmo tempo. Isso sim é você que escolhe.

Neste meio tempo eu fiz amigos de todas as partes do mundo. Não apenas turcos, mas também chineses, macedônicos, indianos, neozelandeses, indonésios, alemães, russos, escoceses, colombianos – e até mesmo brasileiros. Amo todos, assim, de um amor diferente que se aprende a ter, daqueles amores que você frequentemente vai ter a impressão que esqueceu durante a sua vida, mas que no fundo – um dia, se e quando for á Rússia, Índia ou China, vai querer muito encontrar. Graças a eles eu aprendi muito, dissolvi muitos pré-conceitos em água morna, ri bastante, perguntei, respondi, troquei conhecimento. Mais do que tudo, adquiri.

De fato, só uma pessoa me acompanhou todos os dias, vivendo as sensações, provando novos sabores, quebrando paradigmas. Eu mesma. E esta foi a minha escolha: sem que ninguém perguntasse, eu simplesmente escolhi passar a maior parte do tempo comigo.

Comemorando os primeiros flocos de neve: you only live once!


Preciso renovar meus livros. Trouxe apenas um e agora sinto falta. O “As travessuras da menina má” merece mais do que tudo voltar para a dona e entrar em férias, depois desta longa viagem. Ontem li uma passagem que me fez decidir qual será o próximo que vou devorar. Amyr Klink, em “Mar sem fim”. Fique com vontade você também:

“Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

Simples assim.

segunda-feira, 10 de março de 2008

As tardes.

O domingo de sol em Izmit me fez lembrar minha primeira semana de intercâmbio, pois voltei ao Seka Park, lugar que eu nunca vou esquecer, cheio de energia boa. Sinceramente, não entendo por que diabos os outros trainees não gostam de morar aqui, ficam de tititi reclamando que Istanbul é o que há e Izmit é sem graça. Bobagem! Eu adoro essa cidade, boa demais pra trabalhar a semana toda e com ótimas opções de passeios ao ar livre, além dos shoppings, hipermercados e cafés. Basta saber procurar.

Seka Park, em Izmit - minha cidade :)


Lugarzinho sem graça, né?


Happy bad hair day!


A placa mais legal: "por favor, PISE na grama"!

domingo, 9 de março de 2008

Os horizontes.

Ontem estive em Istanbul pela 5a vez e, como sempre, com um objetivo diferente.

Fui conhecer o luxuoso bairro Bebek e namorar um pouco mais a cidade ao modo antigo em Ortakoy. Confesso que achei Bebek europeu/americano demais: pessoas abarrotadas nos balcões do Starbucks, restaurantes para todos os gostos (eu fui no La Favorita, italiano, pra comer uma pizza de queijo com copa (!) - algo muito diferente para meus acompanhantes e amigos turcos, mas pra mim nada que não se possa comer num domingo em Silveira Martins, hehe). Vale confessar que não comer o waffle recheadíssimo que se vende por lá é um pecado, mesmo sendo mais um símbolo da vontade turca de se tornar "dos grandes", como a Europa e a América do Norte. Mal eles sabem que não precisavam ficar se travestindo de chiques, consumistas e sofisticados: o que mais agrada na Turquia é a essência, as origens.

Aí vai uma amostra do dia:

Ponte que separa Ásia e Europa.



Eu e meus livros de lingua turca em Ortakoy.

Tá nervoso? Vá pescar no Bósforo!

Fervo!

sexta-feira, 7 de março de 2008

O jogo.

Depois de quase dois meses, pronto. Criei coragem pra meter a cara aqui.

Mais um dia. 10 e meia da manhã, checando e-mails e bebendo um turkish coffee delícia no escritório. Sim, a vida está muito boa, obrigada. O intercâmbio está superando todas, todas as minhas expectativas. Não estou falando sobre qualidade de serviço ou portas mágicas se abrindo. Não. Eu apenas nunca imaginei que em tão pouco tempo alguém pudesse aprender tanto.

Quando a gente larga casa, cama e banheiro próprio pra correr o mundo, a gente abandona bem mais do que isso. No princípio, confesso, o cenário parecia uma tortura só, onde eu viveria por três meses cagando em um buraco no chão, monossilábica e repetindo a roupa do corpo todo dia no trabalho.

Depois de duas ou três noites de sono (e sonhos com feijão e leite condensado) a vida começa a ganhar forma. Parece que foi ontem. Passado o susto inicial, vieram os grandes aprendizados.

Deveria ter estudado mais antes de chegar aqui. Não sobre a Turquia, mas sobre o Brasil. Levei mais de dois baldes de água fria ao ser surpreendida com informações concretas sobre o MEU país. Sobre o biodíesel, a economia brasileira, algum lugar no mapa, números e estatísticas. Ok, convenhamos: o Google pode até ser melhor amigo dos turcos, mas ao menos eles se esforçaram pra clicar lá e saber das coisas. Eu, não.

Também pela 1a vez na vida compreendo as homenagens aos pais em formaturas. Pra mim essa parte da cerimônia nunca tinha feito sentido. Agora entendo. Precisei viajar milhares de quilometros pra entender que família não é apenas o símbolo, a tradição. É bem mais. As primeiras pessoas que confiaram e confiarão em ti, sempre - incondicionalmente. Aqueles que abrem as portas para as possibilidades entrarem na sua vida. São as referências.

Por falar em referências, descobri que considero muito mais o RS e SC como país do que todo o restante do território. É uma droga explicar as diferenças que figuram no Brasil, mas o resultado é interessante. Tá certo que as pessoas querem mesmo é saber pra que time eu torço, se danço samba no Carnaval e se o Rio de Janeiro continua lindo. No começo eu me ofendia, achava ignorância de gente bitolada que não sabe nada sobre o mundo, mas poxa, e não é? O que EU sei sobre mundo, afinal? Vou ficar três meses contando a história do meu bisavô que veio da Alemanha ou vou saciar a vontade sincera dos outros de saber das morenas cheias de curvas e praias de mar azul? Tem hora pra tudo.

Interessante também é uma pequena porção de ufanismo que os turcos carregam nos bolsos. A grande pergunta que respondo quase todos os dias é: por que escolheu a Turquia? Complicado, viu.

Depende do dia. Se estou de bom humor faço poesia e digo "porque é um lugar místico, lindo e sempre quis conhecer". Se estou cuzona falo a verdade: "nunca tinha pensado em vir pra cá, mandei meu currículo para 50 empresas de todo mundo e me aceitaram aqui, então bora enfrentar a diversidade". Nem todos merecem a verdade aqui. Tem muita gente boa pelas ruas da Turquia, pessoas que te tratam como se você fosse parte da família, que prendem broche de pimentinha na sua jaqueta pra livrar do mau olhado, que sorriem mesmo sem entender nada.

Já adianto: a Turquia é maravilhosa. Difícil explicar esse lugar inesperado, com essa pitada gélida de Europa envolta com o colorido quase triste da Ásia, as pessoas e carros sempre rápidos como feixes de luz, toda essa crença e fé que ronda os dias, todas as incertezas aconchegantes que tenho vivido.

E eu que nunca fui lá muito amiga da sorte, admito: desta vez o dado caiu no 6.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os dias.

Em Izmit, uma estrela em meio ao sangue.


Para sempre na memória.


Istanbul, linda demais.