Faz tempo, eu sei, mas a verdade é que ficou pra sempre.
Na madrugada de 17 agosto de 1999 um terremoto atingiu a região de Izmit, fazendo com que prédios e mesquitas virassem farelos. Foram cerca de 45 segundos de duração e mais de 110 km de destruição completa na cidade e arredores. Estima-se que mais de 40.000 pessoas morreram e cerca de 300.000 ficaram desabrigadas.
Durante minha estada na Turquia, ouvi esta história dezenas de vezes. E não são apenas números que as pessoas contam. A linguagem corporal sempre diz bem mais. O olhar muda, a voz perde tom, um ou outro amigo são lembrados com carinho e tristeza, faltam palavras.
Aqui eu moro com um casal que tem um filho de 11 anos. Ouvi da boca dela, a mãe, de forma seca e acompanhada de olhar distante: “achei que o mundo ia acabar naquela noite”.
Tremi na base quando, sentada na cafeteria da estação de esqui, Muko contou que o lugar onde estávamos, lá, onde dezenas de crianças sorriam e deslizavam pelo gelo falso, virou o cemitério improvisado da cidade naquela ocasião, comportando milhares de corpos não-identificados.
Nove anos se passaram. A cidade agora é verde, cheia de parques, com centenas de prédios construídos pelo governo para abrigar os milhares de sem-teto que nasceram naquela noite.
Há duas semanas atrás conheci Esla, uma mulher de 30 anos, loira, jeito tranqüilo, que trabalha num banco em Istanbul e que me surpreendeu contando que já pagou 35 liras por um chá em um bar famoso em Istanbul, bem como mais de 1500 liras por um simples jantar (que, pasmem, era composto de massa, carne e queijo) com mais três amigos. Por questão de minutos, isso foi o mais surpreendente que soube sobre ela.
Horas depois, sozinha com Muko, perguntei o porquê da voz baixa e olheiras profundas de Esla. Ela parecia viver bem, uma mulher elegante, moderna e bem posicionada no fervo de Istanbul – mas mesmo assim tinha algo de estranho, mal explicado, dessas poeiras que se jogam pra baixo do tapete pra que ninguém se dê conta que um dia o passado existiu.
Muko sorriu amarelo, contando que toda a família de Esla tinha falecido no terremoto. Desde então, ela carrega com ela todas as dores do mundo em silêncio. E só.
Muito só.
Na madrugada de 17 agosto de 1999 um terremoto atingiu a região de Izmit, fazendo com que prédios e mesquitas virassem farelos. Foram cerca de 45 segundos de duração e mais de 110 km de destruição completa na cidade e arredores. Estima-se que mais de 40.000 pessoas morreram e cerca de 300.000 ficaram desabrigadas.
Durante minha estada na Turquia, ouvi esta história dezenas de vezes. E não são apenas números que as pessoas contam. A linguagem corporal sempre diz bem mais. O olhar muda, a voz perde tom, um ou outro amigo são lembrados com carinho e tristeza, faltam palavras.
Aqui eu moro com um casal que tem um filho de 11 anos. Ouvi da boca dela, a mãe, de forma seca e acompanhada de olhar distante: “achei que o mundo ia acabar naquela noite”.
Tremi na base quando, sentada na cafeteria da estação de esqui, Muko contou que o lugar onde estávamos, lá, onde dezenas de crianças sorriam e deslizavam pelo gelo falso, virou o cemitério improvisado da cidade naquela ocasião, comportando milhares de corpos não-identificados.
Nove anos se passaram. A cidade agora é verde, cheia de parques, com centenas de prédios construídos pelo governo para abrigar os milhares de sem-teto que nasceram naquela noite.
Há duas semanas atrás conheci Esla, uma mulher de 30 anos, loira, jeito tranqüilo, que trabalha num banco em Istanbul e que me surpreendeu contando que já pagou 35 liras por um chá em um bar famoso em Istanbul, bem como mais de 1500 liras por um simples jantar (que, pasmem, era composto de massa, carne e queijo) com mais três amigos. Por questão de minutos, isso foi o mais surpreendente que soube sobre ela.
Horas depois, sozinha com Muko, perguntei o porquê da voz baixa e olheiras profundas de Esla. Ela parecia viver bem, uma mulher elegante, moderna e bem posicionada no fervo de Istanbul – mas mesmo assim tinha algo de estranho, mal explicado, dessas poeiras que se jogam pra baixo do tapete pra que ninguém se dê conta que um dia o passado existiu.
Muko sorriu amarelo, contando que toda a família de Esla tinha falecido no terremoto. Desde então, ela carrega com ela todas as dores do mundo em silêncio. E só.
Muito só.